RJ: Cercadas por barreiras do tráfico, pessoas relatam a humilhação que sofrem

“Faz dois anos que meus parentes não vão lá em casa, desde que a rua foi fechada por traficantes com montes de terra. Por um lado, eles não vão porque têm medo da violência. Mas eu também não insisto, porque sinto vergonha”.

O lamento é de um morador do Mutuapira; o problema de ruas fechadas por bandidos é de toda a região. Da BR-101, é possível ver barricadas em Jardim Catarina e Porto do Rosa, em São Gonçalo, e Buraco do Boi, em Niterói. Nesta cidade, um casal de idosos está desaparecido desde que removeu um dos bloqueios, na Cova da Onça.

Ao longo da rodovia, interditada na terça-feira desta semana devido a uma troca de tiros, a equipe do “Mais São Gonçalo” contou sete barreiras em ruas próximas. Escombros, troncos, caçambas de lixo, entulho e até um fogão. Tudo posto para atrapalhar a polícia, mas que acaba incomodando muito mais o dia a dia dos moradores.

— Não só atrapalha, mas também humilha. A gente acaba se habituando, mesmo com o absurdo. Não sai da minha cabeça a primeira vez que tirei a barricada para passar com o carro. Eu não entendi o que os galões de lixo estavam fazendo no meio da rua, mas parei e afastei. Quando estacionei, um garoto que tinha idade para ser meu filho veio gritando: “Qual é, coroa? Não vai arrumar, não? Tem que botar no lugar direitinho” — diz um morador de Santa Catarina.

As barricadas também impedem a chegada de serviços essenciais, como ambulâncias e veículos da companhia de iluminação, intimidam carteiros, afugentam entregadores. Obrigam moradores a carregar nos braços o que os carros ficam impedidos de levar.

— Quando dá para remover, menos mal. Na rua em que moro, o monte de terra é tão grande que tem até uma árvore em cima — relata uma moradora de Itaúna: — Meu carro fica longe e o jeito é carregar as compras com as mãos. O lixo, tenho que levar até o outro lado da barricada. As encomendas mando para a casa da minha mãe, em outro bairro. Penso mesmo é em me mudar daqui mas, ainda assim, vou passar pela última prova: carregar a casa inteira nos braços.


Em alguns casos, as barricadas podem ser o limite entre a vida e a morte. Desaparecido desde o dia 29, o casal Edvaldo Evans Brito, de 70 anos, e Jane Correa, de 72, foi retirado por traficantes de sua casa aos tapas, depois de um desentendimento por conta de uma barreira.

A Divisão de Homicídios, que investiga o desaparecimento, não tem provas de que os idosos estejam mortos, mas os investigadores não esperam encontrá-los vivos.

— Os moradores devem ligar para o Disque-Denúncia (2253-1177) nestes casos. Em muitas localidades, a PM não sabe que a rua está interditada — recomenda o tenente-coronel Almyr Cabral, comandante do 7º BPM: — Em São Gonçalo, o problema é crônico no Jardim Catarina. Nós sabemos e removemos muitas delas, em toda a cidade. Um trabalho sem fim. É assim até que o bandido canse de cercar.

Para remover barricadas grandes, de terra e entulho, o batalhão deve receber, em breve, a ajuda da equipe de demolição do Bope.

Em Niterói, o coronel Fernando Salema, comandante do 12º BPM, também diz que o trabalho de tirar as barricadas é como enxugar gelo.

— Essas do Buraco do Boi já foram removidas algumas vezes. O morador que flagrar o fechamento da rua deve ligar imediatamente para o 190. Se conseguirmos chegar no momento da instalação, poderemos fazer a prisão dos responsáveis.



Fonte: extra



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