Violência deixa 16 mil estudantes sem aulas em apenas 15 dias no Rio

Em julho, troca de tiros suspendeu aulas na Maré, Chapadão e Antares.
Docentes dizem que operações não deveriam ocorrer no horário escolar.

Caveirão no portão de entrada, armas escondidas na quadra e policiais nos pátios fazem parte da rotina dos alunos da rede pública de ensino do Rio de Janeiro. Apenas nos primeiros 15 dias do mês de julho, a violência na cidade deixou, pelo menos, 16.853 mil alunos fora das salas de aula por, no mínimo, um dia.
As escolas afetadas ficam em áreas nas quais houve confronto entre policiais e bandidos: Maré e Favela do Chapadão (Costa Barros), na Zona Norte, e nas comunidades do Rola e Antares (Santa Cruz), na Zona Oeste.

“Nos dias 30, 1°, 2 e 3 não tivemos aula. Semana passada também perdemos dois dias de aula e essa semana tivemos apenas meio período. É sempre uma situação de muita instabilidade para quem está na escola”, afirmou uma professora do Ciep Elis Regina, que fica no conjunto de favelas da Maré, que está ocupado desde o dia 30 de junho pela PM para a instalação da Unidade de Polícia Pacificadora.

 
Para professores de escolas situadas em área de risco, as operações policiais não poderiam ocorrer durante o horário escolar mas, quando fosse inevitável, deveria haver um entendimento entre as secretarias e governos para que as escolas fossem avisadas e as aulas previamente suspensas.
“Já peguei situações na minha escola do caveirão parado na porta trocando tiros e a aula acontecendo”, ressaltou a professora. De acordo com a PM, reuniões mensais são feitas pelos comandantes dos batalhões com diretores e/ou professores de colégios para discutir os problemas ligados a segurança local.

Desde o início do mês, quando aconteceu a troca das tropas do Exército por PMs que vão atuar nas UPPs da Maré, os moradores têm sofrido com intensos tiroteios. Apenas no dia 1° de julho, 7.008 alunos da rede municipal e outros 700 da estadual não tiveram aulas. Na última terça-feira (14), durante um confronto no conjunto de Favelas do Chapadão, onde uma mulher morreu e uma professora foi baleada, 5.645 alunos de oito escolas, três creches e dois espaços de Desenvolvimento Infantil (EDI) não tiveram aula. No dia 6 de julho, três mil alunos da rede municipal e 500 da rede estadual nas comunidades do Rola e Antares foram afetados.

Corredor vira abrigo
Em Santa Cruz, alunos e professores também enfrentam problemas sérios. Traficantes invadiram a quadra do Ciep Primeiro de Maio, que fica entre as comunidade do Rola e Antares, e fizeram buracos no muro para colocar as armas e se proteger durante confrontos com criminosos rivais ou policiais. “Eles ficam ali de vigia. A direção já tentou fechar diversas vezes, mas nunca conseguiu, pois eles mandam parar de colocar o tijolo e abrem novamente”, contou uma docente da unidade.

Segundo os professores, quando o tiroteio começa, os alunos são levados para os corredores e, de acordo com eles, em um mesmo dia a aula chega a ser interrompida diversas vezes. “Os tiros param e recomeçam o tempo todo. Às vezes, mal começamos a escrever no quadro e precisamos sair da sala com as crianças novamente. Fico no corredor tentando distraí-los e tranqulizá-los”, revela a professora.

Em nota, a PM informou que o comandante do 27°BPM (Santa Cruz) ressaltou que o patrulhamento na região é feito diariamente e que operações são realizadas constantemente para reprimir o tráfico de drogas e crimes. A PM ainda destacou que, até o momento, não recebeu nenhum contato de alunos ou professores do colégio sobre a invasão de criminosos na unidade escolar.


Base da UPP fica no pátio de escola
A atual base da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Nova Brasília, no conjunto de favelas do Alemão, na Zona Norte, está sediada no pátio do colégio estadual Teófilo de Souza Pinto. A unidade foi inaugurada em 2012 e, desde então, a evasão escolar aumentou muito. Quando a UPP foi inaugurada, cerca de 1.400 alunos estavam matriculados na unidade escolar e, atualmente apenas 700 jovens continuam na escola.

De acordo com a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP), a base será desativada e passará a funcionar em outro local, assim que as obras da futura sede terminarem. No entanto, a CPP informou que não há prazo definido para que a mudança ocorra. A região de Nova Brasília é uma área muito sensível que enfrenta constantemente situações de confronto entre criminosos e policiais militares. Diversas vezes as paredes da escola foram alvejadas por traficantes.

Menino morreu dentro de colégio em 2010
Em julho de 2010, o menino Wesley Gilbert Rodrigues de Andrade, de 11 anos, morreu após ser atingido no peito por uma bala perdida dentro de uma sala de aula no Ciep Rubens Gomes, em Barros Filho, no Subúrbio.

A criança chegou a ser levada para o Hospital Estadual Carlos Chagas, em Marechal Hermes, mas já chegou morto à unidade. No momento em que o menino foi atingido havia outras 30 crianças na classe. Segundo a polícia, neste dia era realizada uma operação nas favelas da Quitanda e da Pedreira.

De acordo com o Sindicato dos Professores do Rio (Sepe), diversas audiências públicas já foram solicitadas à Câmara para tratar da situação de vulnerabilidade e interferência da violência no aprendizado dos alunos, mas o pedido nunca foi aceito. “Um aluno que teve uma noite de sono tranquila vai ter um rendimento bem diferente daquele que passou a noite ouvindo tiroteio. Mas essas questões nunca são levadas em consideração. A única alternativa que o governo apresenta é: ‘Se quiser, fecha a escola’”, afirmou Susana Gutierrez, diretora do Sepe.

Segundo o Sepe, na rede estadual não há nenhum ato normativo que dê tratamento a questão do funcionamento das unidades escolares durante uma situação de conflito armado. Já na rede municipal há um regimento escolar que orienta o que deve ser feito na unidade escolar em situações de risco. A secretaria Municipal de Educação destacou que cabe a direção da escola decidir sobre o funcionamento ou não da unidade durante os confrontos armados.

“O problema é que isso é uma autonomia perversa, pois muitas vezes a direção fecha a unidade e não há um conflito armado. Então, você é culpabilizado porque perdeu um dia de aula a troco de nada. Outras vezes, se você abre, acontece o conflito armado e todos ficam em situação de risco”, disse Susana, destacando que as secretarias de Educação e de Segurança deveriam definir entre elas se há ou não condições de haver aula na região durante os momentos de conflito armado.


Aulas são repostas

A Secretaria Municipal de Educação informou que o conteúdo perdido em função dos casos de violência no entorno das escolas são repostos e para garantir assistência aos alunos e professores, a secretaria mantém o Núcleo Interdisciplinar de Apoio às Unidades Escolares (NIAP), que é composto por pedagogos, psicólogos e assistentes sociais.


A Secretaria de Estado de Educação informou que a interrupção de aulas, quando necessária, é pontual e em período parcial, sem prejuízos educacionais. Os conteúdos perdidos são repostos, de acordo com o planejamento elaborado pela direção. A Seeduc ressaltou, ainda, que a direção da unidade escolar tem autonomia para tomar providências no sentido de garantir a integridade física e moral de seus alunos, professores e funcionários.

 

 Fonte: G1

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